2 de agosto de 2017

Trabalho e férias (Anselmo Borges DN 28.07.2017)



1. O Homem "define-se" por muitas características. O trabalho - homo laborans - é uma dessas dimensões constitutivas do humano. E, quando falamos do trabalho, não pensamos apenas na necessidade que o Homem tem de se esforçar para poder sobreviver - ele há esta palavra tremenda: "trabalhar para ganhar a sua vida", que há dias o L"Osservatore Romano, órgão oficioso do Vaticano, disse que também se deve aplicar aos padres. De facto, por outro lado, o trabalho significa o esforço comum da Humanidade para transformar o mundo, pois é transformando o mundo que o Homem verdadeiramente se realiza e toma consciência de si enquanto humano, como bem viu Hegel, concretamente na sua famosa dialéctica do senhor e do escravo, no que constitui a primeira grande reflexão filosófica sobre o trabalho, na Fenomenologia do Espírito. O escravo, pelo trabalho e transformando o mundo, não ganha apenas para o seu sustento, pois, para lá disso e sobretudo, vem a si mesmo na consciência de Homem, de tal modo que supera o senhor para quem trabalha: afinal, o senhor apenas consome o que o escravo produz.
Quando se olha à volta ou se viaja pelo mundo, por toda a parte, de um modo ou outro, o que vamos encontrando tem que ver com este esforço histórico-colectivo gigantesco de transformar o mundo e torná-lo humano. Instrumentos de trabalho, aldeias, cidades, meios de transporte - dos mais simples aos mais complexos -, monumentos, fábricas, escolas, universidades, laboratórios, bibliotecas, museus...
Assim, o trabalho tem sempre esta dupla face: por um lado, o esforço, e, por outro, a obra. O esforço está bem presente na própria palavra trabalho: deriva de tripalium, que era um instrumento de tortura. Na Bíblia, no Génesis, é dito por Deus ao Homem: "Comerás o pão com o suor do teu rosto." A outra face é a obra: o Homem, mediante o trabalho, realiza obras que o enaltecem. É construindo o mundo de múltiplos modos que a Humanidade ergue a sua História de fazer-se. A sua obra é essa.
2. Frequentemente, quando se fala de trabalho, é sobretudo em emprego que se pensa e no desespero que o desemprego representa. Neste sentido e tomando em conta, por um lado, a globalização e, por outro, a influência, por exemplo, da robotização e o que ela significará nestes domínios, penso que este é um dos temas que vai exigir uma governança global. Não vou meter--me nesta problemática gigantesca do trabalho enquanto bem escasso que é preciso saber distribuir e partilhar, com todas as consequências. Também não pretendo argumentar, como já uma vez escrevi aqui, com o matemático e filósofo Bertrand Russell, Prémio Nobel da Literatura, que há muito tempo escreveu que bastaria trabalhar quatro horas por dia, ou com o físico de renome mundial, Hans Peter Dürr, que também disse que precisaríamos apenas de um terço do nosso tempo de trabalho para produzirmos o que é realmente importante... O outro tempo seria para a criatividade e sua fruição na beleza, na música, na contemplação, na filosofia...
3. E assim entro nas férias. De facto, o Homem não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de gáudio, de gratidão, de criação e contemplação. O Homem não se esgota na produção e destrói-se quando vive apenas para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver e nesse viver estão o trabalho e também a festa, o gratuito, a alegria genuína de ser si mesmo com os outros, o inútil do ponto de vista da produção - "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner, que também escreveu sobre a música, inseparável do sentimento religioso e que nos torna vizinhos do transcendente: "Ela foi durante muito tempo, continua a ser hoje, a teologia não escrita dos que não têm ou recusam qualquer crença formal."
Isto diz-se na palavra férias, quando se considera o seu étimo: a palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". A Bíblia também tem o mandamento de Deus de um dia de descanso semanal e de festa, dia santo sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar - e duro -, mas não é uma besta de carga.
Se se pensar bem, as férias, como aliás um dia feriado, não têm como finalidade última um intervalo no trabalho em ordem a repor as forças, para poder voltar a trabalhar e mais. As férias e um dia feriado têm a sua finalidade em si mesmos: a experiência, repito, de que o ser humano é um ser festivo. É preciso voltar às alegrias simples: a alegria do estar juntos em família e com os amigos e também a alegria de estar só para saber de si no milagre da existência, contemplar uma gota de água numa folha de erva, acolher o perfume de uma rosa, que dá perfume sem porquê, como escreveu o místico Angelus Silesius. Ler poesia e escutá-la. Ler a grande literatura, que diz as nossas possibilidades. Ouvir música, a música que é o divino no mundo e nos remete para origens imemoriais e para a transcendência, lá, para lá, onde nunca propriamente estivemos, mas é para lá que queremos ir morar para sempre... Exaltar-se com o mistério de qualquer rosto humano no seu olhar, o olhar que é alguém vir e mostrar-se à janela de si mesmo. Apanhar sol na praia, no campo, na montanha e ver nascer o Sol e pôr-se (ah, e se ele nunca mais voltasse?!) e contemplar o alfobre das estrelas (o que na cidade não se vê). E ter tempo para ouvir o silêncio e descer ao mais fundo de si, lá onde verdadeiramente somos nós. E perceber que é possível e necessário emendar tanta coisa e ir mais longe, sempre mais longe na honra e na dignidade. E, se se for fora, encontrar-se na autenticidade com culturas outras e diferentes modos de também se ser humano. E vir mais rico em humanidade e horizontes novos. Boas férias!

13 comentários:

  1. Quando este senhor usa o termo Homem, quererá ele dizer homens e mulheres, por acaso?

    Li apenas as duas primeiras palavras da crónica. Chega.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Homem, género humano, homens e mulheres, obviamente, Catarina.

      Eliminar
    2. Obviamente que o termo está ultrapassado, Pedro. Há muito que não aceito Homem com esse significado. Em inglês há décadas que não é aceitável. E o Pedro compreendeu perfeitamente a minha pergunta retórica! :))
      Boa noite ou bom dia😑

      Eliminar
    3. Compreendi, Catarina.
      Mas Anselmo Borges não é nada, mas mesmo nada, machista.
      Sonhos cor-de-rosa.

      Eliminar
    4. Realmente, Catarina, Pedro tem razão : Anselmo Borges defende a Mulher.

      Sugiro a leitura do seu mais recente livro: "FRancisco, Desafios à Igreja e ao Mundo "

      Eliminar
  2. enlightening reading my friend!

    Social animal or cleverer animal may be

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Welcome baili.
      Anselmo Borges is someone I deeply admire.
      A priest and a University teacher (Filosophy) that has a very open and modern approach to Catholicism.

      Eliminar
  3. Li e reli e começo a achar algumas crónicas de Anselmo imensamente chatas, melhor dizendo...muita parra e pouca uva, como esta, porque no terreno +e tudo bem pior!

    Beijocas e desculpa por dizer que não gostei:)) e saio de fininho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nada de desculpas, Fatyly.
      Esta é uma das crónicas em que Anselmo Borges deixa fugir o pé para a chinela do académico.
      O que as torna mais enfadonhas.
      Beijocas

      Eliminar
  4. Estou a gostar imenso do seu mais recente livro!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anselmo Borges é um homem invulgar.
      Como todos os homens muito inteligentes e muito cultos às vezes pode tornar-se demasiado intelectual, demasiado académico.
      É o caso desta crónica.

      Eliminar
  5. Não é das crónicas mais felizes de Anselmo Borges. Confesso que no dia em que foi publicada comecei a ler, mas passei adiante. Hoje li todinha e continuo a torcer o nariz. Por acaso, há dias, tinha estado a falar com o irmão dele sobre estas crónicas...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito voltada para a faceta mais de académico de Anselmo Borges, Carlos.
      E, enquanto tal, menos interessante.

      Eliminar