28 de março de 2013

Votos de uma Páscoa Feliz para todos!!


A Ressurreição de Cristo, Rafael Sanzio (1483 - 1520), Itália

Poema de Páscoa (Albert Steffen)

Atenção, abrir em uma nova janela.(do livro “Wegzehrung”, pag.106 - Versão para o português de Ruth Salles)


Fazem medo o ar opresso, o frio,
                 [a escuridão,
e não quer mais seguir batendo
                       [o coração,
e assim nenhum consolo encontram
                       [os amigos,
e tímidos então rodeiam meu
                       [jazigo
e sentem, de meu sopro, o ar da
                 [morte passar.
- Ó vós, tudo que tendes, a fala,
                       [o olhar,
e que trazeis a mim, o sepulcro
                       [devora
insaciável sugar do meu túmulo
                       [agora.
Porém, ante o sepulcro, eis o
             [Cristo postado!
Olhai! De quanta luz Ele está
                       [rodeado!
Reparai no calor que se irradia
                       [dele,
subi do vosso Nada ao Tudo que
                       [está nele,
estendei vossas mãos em sua
                       [direção,
cruzai-as junto ao peito e:
      [Eu sou! - dizei então.
E o calor e a luz, fluindo em
             [mim, florescem,
e o último inimigo, a morte, se
                     [esvanece.


Votos de uma Páscoa Feliz para todos!!

O blogue estará de volta na próxima terça-feira (segunda-feira há tolerância de ponto para o funcionalismo público em Macau) para uma semana muito curta porque na quinta-feira comemora-se o Cheng Ming (Dia dos Antepassados) e é feriado em Macau.

27 de março de 2013

Blogue Olhar Direito

Outra vez por aqui
Desta vez para dar a conhecer o novo cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong

Recordando Dom Oscar Romero, Mártir



No passado domingo, dia 24 de Março, foi lembrada a vida, morte e ressurreição de Oscar Romero, arcebispo de El Salvador. 
Na véspera de seu martírio, pronunciou as seguintes palavras, dirigindo-se diretamente à ditadura militar: 
"Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: 'NÃO MATARÁS!' Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (...). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!". 
No dia seguinte, 24 de Março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia na capela do Hospital da Divina Providência, Dom Oscar foi assassinado por um atirador de elite do exército salvadorenho. 
O mandante do crime, major Roberto D'Aubuisson, reconhecido como responsável, nunca foi processado.

Óscar Arnulfo Romero Galdámez, conhecido como Monsenhor Romero, nasceu em Ciudad Barrios em 15 de Agosto de 1917 numa família de origem humilde. 
Ele foi ordenado padre em 4 de Abril de 1942. 
Nomeado bispo auxiliar de San Salvador em 1970, tornou-se bispo de Santiago de Maria em 1974. 
Em 1977 foi nomeado Arcebispo de San Salvador. Escolhido como arcebispo por seu aparente conservadorismo, uma vez nomeado aderiu aos ideais da não-violência, posição que o levou a ser comparado ao Mahatma Gandhi e a Martin Luther King. 
Por isso, Oscar Romero passou a denunciar, em suas homilias dominicais, as numerosas violações de direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil de El Salvador. 
 Dentro da Igreja Católica, defendia a "opção preferencial pelos pobres".

"A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra sua salvação."

(Dom Oscar Romero)

            Dom Oscar passou por um verdadeiro e sofrido processo de conversão ao longo de sua vida como arcebispo, exactamente a partir do momento em que começou a "ver a opressão do povo salvadorenho e ouviu-o clamar sob os golpes dos chefes da ditadura militar. Ao conhecer seus sofrimentos, desceu do trono arquiepiscopal para libertar o povo de seus opressores, levando-o para uma vida de esperança, onde há-de manar justiça e paz!" (cf. Êxodo 3, 7.8).

            Na medida em que aprendia a caminhar junto ao povo "se tornou um anunciador da fé e da verdade, um resoluto defensor da justiça e, enfim, um amigo, um irmão, o defensor dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos operários, dos que vivem nos bairros marginalizados", como testemunhava um grupo de bispos latino-americanos, no dia 29 de Março de 1980, às vésperas dos funerais de dom Romero.


Dom Oscar Romero não estava sozinho no sonho de uma Igreja dos pobres.


1. Ele se encontrava dentro da tradição bíblico-cristã a favor dos pobres:

·         "Ele julgará os indefesos com justiça, Se pronunciará com equidade pelos pobres da terra" (Isaías 11, 4);

·         "Ele deu com largueza aos pobres: Sua justiça subsiste sempre, Sua fronte se levanta com altivez" (Salmo 112, 9);

·         "Quem despreza o próximo, peca; mas quem tem pena da gente humilde é feliz" (Provérbios 14, 21);

·         "A Boa Nova é anunciada aos pobres" (Mateus, 11, 5 e Lucas 4, 18; 7, 22);

·         "Eles [Tiago, Pedro e João] pediram apenas que nos lembrássemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado." (Gálatas 2, 10).


2. Ele se encontrava dentro da tradição histórica do
cristianismo a favor dos pobres:

·         Jesus, muito distante dos palácios, do luxo e da ostentação,
viveu a pobreza.

·         Francisco de Assis e Clara, no século XIII, seguiram seu mestre
nestes preceitos.

·         Vicente de Paulo, no século XVII, ficou conhecido por viver
pobre e organizar a assistência aos pobres, a fim de que chegassem a ter vida mais digna. Ele dizia que "o amor é inventivo até o infinito!", ou seja, sempre haveremos de construir novas formas de viver a pobreza e, ao mesmo tempo, buscar meios adequados de cuidar dos pobres.

·         Nos dias do próprio Romero encontramos Tereza de Calcutá, e,
mais perto de nós, Dom Helder Câmara, Irmã Dulce e tantos outros que sabiam e sabem viver a grande lição do Evangelho na humildade, simplicidade, no serviço e no cuidado.

Todos, cada um(a) à sua maneira, têm testemunhado a pobreza evangélica como base da vida dos seguidores de Jesus, rumo a um mundo novo, o Reino de Deus, que podemos viver já aqui entre nós, aquele reino que já é, e, no mesmo momento, ainda não é.

3. Ele se encontrava dentro da tradição recente da Igreja a favor dos pobres:

·         Papa João XXIII, em 11-09-1962, poucos dias antes do início do Concílio Vaticano II: "Pensando nos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta e quer realmente ser a Igreja de todos, em particular, a igreja dos pobres";

·         Um grupo de bispos, poucos dias antes do término do Concílio Vaticano II (16-11-1965), firmou o "Pacto das Catacumbas de uma Igreja serva e pobre", dizendo: "Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Também renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas e cores berrantes), como nas insígnias de matéria preciosa, que devem ser evangélicos." Optaram eles, desta forma, por uma vida pobre, deixando seus palácios e indo morar em casas simples, tirando anéis e outros ornamentos, a fim de aproximar-se mais do jeito simples de ser de Jesus. Dom Helder Câmara e Dom Fragoso estavam entre os bispos que assinaram e viveram este pacto.

·         Conferência Episcopal Latino-Americana em Medellín (1968):
 "A Igreja da América Latina, dadas às condições de pobreza e subdesenvolvimento do continente, sente a urgência de traduzir o espírito de pobreza em gestos, atitudes e normas, quer a tornam um sinal lúcido e autêntico do Senhor. A pobreza de tantos irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso, esforço e superação para o cumprimento pleno da missão salvífica confiada por Cristo". (documento de Medellín, p. 146).

·         Dom Oscar participou da Conferência Geral dos Bispos
Latino-americanos em Puebla (1979), e identificou-se plenamente com o apelo dos bispos à "conversão de toda a Igreja para uma opção preferencial pelos pobres, no intuito de sua integral libertação" (documento de Puebla, n.º 1134).

O seu compromisso com a causa do povo sofrido de San Salvador, a sua opção evangélica e profética pelos pobres, a sua coragem de denunciar as injustiças, a sua força de anunciar a libertação através do Evangelho de Cristo, e a sua humildade de testemunhar a pobreza por vivê-la em sua própria vida, fizeram com que Oscar Romero se tornasse servidor do povo, até na consequência do martírio.

"Uma religião com uma missa aos domingos, mas com semanas injustas, não agrada ao Senhor.

Uma religião com muitas orações, mas com hipocrisia no coração, não é cristã.

Uma Igreja que se organiza apenas para ser próspera, para ter muito dinheiro e conforto, mas que se esquece de se insurgir contra as injustiças, não é a verdadeira Igreja do nosso divino Redentor."

(Dom Oscar Romero)

SEMANA DAS ALIANÇAS MALDITAS (Frei Bento Domingues, o. p.).



1. Páscoa ou férias da Páscoa? Para uma minoria cristã, a Semana Santa significa a celebração do processo de transformação espiritual da vida humana. Para os mais idosos, acorda recordações inesquecíveis de infância, diferentes, segundo as tradições de cada zona do país. Para os marcados pela secularização, o turismo ainda pode aconselhar a Semana Santa em Braga ou em Sevilha, mas as “fugas” dependem das modelizações da crise na vida de cada um e nas famílias. A fuga mais geral é ficar em casa.
Na Igreja Católica, embora sabendo que uma andorinha não faz a Primavera, vive-se um momento de esperança. A facilidade e a rapidez com que simples e breves sinais preanunciaram mudanças indispensáveis, mostram até que ponto estávamos e estamos saturados de “Inverno”. Dentro e fora Igreja, a urgência de um outro rumo global só a não deseja quem cresce à custa do afundamento dos outros. A miopia financeira nunca perceberá que não é o império do Dinheiro que salvará o mundo.
2. Os cristãos estão avisados, desde há dois mil anos: para evitar as mudanças de rumo na sociedade, no estado e na religião são possíveis as alianças mais contraditórias. S. Lucas, depois de apresentar, no seu Evangelho, o desfecho do currículo de Jesus, escreveu um segundo volume, os Actos dos Apóstolos, para que a Igreja e o mundo não esqueçam o esquema de uma história exemplar: Verdadeiramente, coligaram-se nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, que ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações pagãs e os povos de Israel (Act 4, 27).
        Pedro, ao recolocar a verdade dos factos diante do Sinédrio de Jerusalém não é um vencido, é um judeu atrevido: sabei, todos vós, assim como todo o povo de Israel, que é pelo nome de Jesus Cristo Nazareno, aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou de entre os mortos, é pelo seu nome e por nenhum outro que este homem está curado diante de vós. É ele a pedra que vós, os construtores rejeitastes e que se tornou a pedra angular. Pois não há sob o céu outro nome pelo qual possamos ser salvos (Act 4, 8-12). 
O que terá levado S. Pedro a esta afirmação aparentemente tão exclusivista? Antes de Cristo, ao lado de Cristo e depois de Cristo não aconteceu nada para a salvação do sentido da vida dos seres humanos? A verdadeira história só tem 2000 anos?
Jesus é, de facto, uma particularidade histórica contingente, com data e lugar de nascimento e, como tal, não pode ser considerada uma realidade absoluta. O ser humano pode encontrar o caminho para Deus, sem passar por Jesus de Nazaré. Na história humana nasceram muitas religiões sem qualquer referência cristã. Deus é absoluto, mas nenhuma religião pode pretender ser absoluta. Todas têm fronteiras. Então, de onde viria o atrevimento de S. Pedro, sempre preocupado em dar razão da sua esperança?
É importante desfazer um equívoco grave, para não se cair numa interpretação que nega o próprio sentido das narrativas e das cristologias do Novo Testamento. Supõe-se que esses textos foram escritos para afirmar privilégios e fundar um povo, uma Igreja de privilegiados: Cristo é único e é só nosso; se o quiserem encontrar têm de passar por nós!
O que é particular à pessoa de Jesus, a sua absoluta característica, não tem nada a ver com esse equívoco: Jesus, na sua prática histórica, remete para um Deus que não é propriedade privada nem Dele nem de ninguém. É o Deus do livre amor por todos os seres humanos, sem restrição. O Deus de Jesus também não pode ser privatizado nem sequer pelos cristãos. Por outro lado, Jesus, na sua prática histórica, surge polarizado por todos os seres humanos, sejam ou não povo de Israel. É a partir da periferia que caminha para o centro. Tudo e em tudo, dentro e fora das religiões, só tem sentido se fôr para o bem de toda a humanidade.
O itinerário de Jesus, testemunhado pelas narrativas evangélicas, é o de alguém que está, continuamente, voltado para o Deus de todos. Em Jesus não há rivalidade entre a dedicação a Deus e a entrega à libertação humana. É um Deus humanado.
3. No século XX não foi possível superar, inteiramente, um cristianismo dolorista. A alternativa seria um cristianismo burguês ou hedonista. Perante judeus e gregos, S. Paulo não se cansou de repetir: Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 2). Não haverá perguntas a fazer a esta declaração? Creio que sim.
Jesus não morreu nem de acidente, nem de doença nem de velho. Foi condenado à pena capital, à morte na cruz, que não desejava. A celebração da Semana Santa, as narrativas da Paixão tentam explicar porque é que o crime aconteceu. Se Jesus não amava o sofrimento, se detestava a cruz, porque é que Ele não fugiu, não renegou? A sua fidelidade à emancipação humana era maior que a sua dor.
 O mais importante está, todavia, no que aconteceu na própria cruz. No momento em que é excluído da vida, Ele oferece futuro aos que lhe dão a morte. Ele morre com o mundo vivo no seu coração.
  A aliança de Jesus é com todos os que são contra a morte.
  
in Público 24.03.2013

26 de março de 2013

Problemas de comunicação


A CTM (Companhia de Telecomunicações de Macau) é um bom exemplo da perversidade associada ao monopólio na exploração de serviços essenciais a uma comunidade.
Não se sabendo bem porquê, o mercado de distribuição da Internet em Macau, a tal cidade que se quer internacionalizar, que é líder mundial no sector do Jogo, é ainda explorado em regime de monopólio.
O que resulta numa Internet muito lenta, nada fiável, na ausência de serviços que são já vulgaríssimos noutros locais do Mundo.
As constantes falhas do sinal de Internet, que afectam pessoas e empresas, a um nível nunca devidamente quantificado, são inadmissíveis numa cidade que se quer impor como um destino de referência nas áreas do turismo, do lazer, da organização de eventos.
Na passada semana fomos confrontados com uma afirmação verdadeiramente surrealista vinda da parte de uma alta responsável da CTM.
Os constantes problemas do sinal de Internet em Macau eram exclusivamente provocados pelo equipamento obsoleto que os utilizadores possuem e pelo facto de, teimosamente, navegarem em sítios muito requisitados, muito povoados.
Estas declarações foram proferidas em língua inglesa, sublinhe-se a traço grosso.
Veio agora o mais alto responsável da empresa afirmar publicamente que as declarações da sua colega foram mal interpretadas, que houve problemas de comunicação.
Em boa verdade não, não houve problemas de comunicação.
Há problemas de comunicações, mais precisamente de telecomunicações.
A começar pelo facto de, em grande medida, os serviços destas ainda serem explorados em regime de monopólio.

Quando o nome pode ser todo um programa (Padre Anselmo Borges)



Não foi para mim completa surpresa o cardeal argentino Bergoglio, jesuíta. O que constituiu surpresa foi a escolha do nome: Francisco, sugerido pelo colega, cardeal Hummes, de São Paulo, quando o abraçou e lhe disse: "não te esqueças dos pobres." O Papa Francisco explicou: "Essa palavra entrou aqui (apontou para a cabeça): os pobres. Pensei imediatamente em Francisco de Assis. Assim surgiu o nome no meu coração." E exclamou: "Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres", provocando a ovação dos jornalistas.
E as suas palavras e gestos têm correspondido ao que o nome de Francisco de Assis representa. A simplicidade não teatral, até no vestir e calçar, inclinar-se perante a multidão, a fala cordial e descomplicada, uma cruz peitoral barata, o desejo de "bom descanso" e "bom almoço", ir pagar as despesas de hospedagem, o humor, palavras de ternura e compaixão: isso aproximou-o das pessoas, que agora se podem aproximar, pois é um homem entre homens e mulheres, como Cristo. "Cristo é o centro; o centro não é o sucessor de Pedro." Afinal, a Constituição da Igreja é mesmo o Evangelho e não o Código de Direito Canónico.
Sublinhe-se o seu respeito pela liberdade de consciência. "Tinha-vos (aos jornalistas) dito que vos daria de todo o coração a minha bênção. Muitos de vós não pertencem à Igreja Católica, outros não são crentes. Dou-vos de coração esta bênção, em silêncio, a cada um de vós, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vós é filho de Deus. Que Deus vos abençoe."
No passado dia 12, frente àquela pompa toda dos 115 cardeais a entrar na Capela Sistina, para o conclave, perguntei-me pela simplicidade do Evangelho e sobretudo quem representava as mulheres, as famílias, os jovens, os católicos em geral. A Francisco de Assis pareceu-lhe uma vez, numa pequena ermida, ouvir dos lábios de Cristo crucificado: "Francisco, repara a minha Igreja, que ameaça ruína." Espera-se que o Papa Francisco refaça o rosto da Igreja tão desfigurado. No quadro de uma Igreja-instituição descredibilizada, que reforme a Cúria Romana, tornando-a ágil, transparente e colegial. Significativamente, Francisco tem-se referido a si mesmo como bispo de Roma e não como Papa, transmitindo a mensagem de que quer descentralizar, tornando eficaz a colegialidade dos bispos: ele exerce o ministério da unidade numa Igreja solidariamente co-responsável. Francisco tem força e determinação para acabar com os escândalos da pedofilia, do Vatileaks, do Banco do Vaticano.
O peruano Vargas Llosa, prémio Nobel da literatura, agnóstico, pensa que Francisco "parece moderno" e espera que "inicie o processo de modernização da Igreja, libertando-a de anacronismos como não tratar temas como o sexo e a mulher". Francisco de Assis impôs-se também pela fraternidade. Como poderá então Francisco Papa esquecer mais de metade dos católicos, as mulheres, ainda discriminadas na Igreja, povo de Deus? Um pormenor: dirigiu-se ao povo como irmãos e "irmãs". E como pode não proceder a uma revisão da atitude da Igreja face ao corpo e à sexualidade? Aí está a questão dos anticonceptivos, do celibato obrigatório - neste domínio, talvez comece pela ordenação de homens casados. Neste contexto de fraternidade franciscana, pode contar-se com a sua luta pela justiça, pelos direitos dos pobres, dos mais débeis, para que todos possam realizar dignamente a sua humanidade. O meio ambiente, os problemas ecológicos, a preservação da natureza, criação de Deus e habitação da humanidade não serão esquecidos.
Em tempo de cruzadas, Francisco de Assis pôs-se a caminho para ir dialogar com o sultão no Egipto. Francisco Papa não abandonará a urgência da continuação do diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs e do diálogo inter-religioso e intercultural. Francisco Papa, um sul-americano com raízes europeias e o responsável máximo pela Igreja católica, organização verdadeiramente global, ocupa um lugar privilegiado para estabelecer pontes entre nações e povos e culturas, a favor da justiça e da paz, num mundo cada vez mais policêntrico e multipolar.
Há razões para uma esperança paciente.

Pequenos gestos



Escreveram os jornais que foi entre lágrimas que o Cardeal Jorge Maria Bergoglio pediu aos seus irmãos cardeais, no Conclave de 2005, que não o escolhessem para Papa. Oito anos depois, surpreendendo tudo e todos, é escolhido para suceder a Bento XVI. E de surpresa em surpresa temos andado estes dias a ser conquistados pela simplicidade e autenticidade do Papa Francisco, que me lembra João XXIII, e fala como imaginamos que falava São Francisco de Assis, e se apresenta com a proximidade de um pároco de uma aldeia cada vez mais global, com palavras que acolhem e comprometem todos. Poderíamos começar a recolher as “fioretti” do Papa Francisco e, mais ainda, acolher o seu revolucionário desafio à ternura:”Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura”! Peço a Deus que o ajude a ser sempre autêntico (como dizia a sua irmã mais nova: “Graças a Deus, Francisco continua a ser o Jorge”) e nos dê a coragem de agarrar a sua “pedalada”!
Os relatos da Paixão são o culminar dos evangelhos e a também as primeiras narrativas a passar a escrito. Eles aglutinarão a organização dos evangelhos e neles percebemos o impacto do sofrimento de Jesus e da sua entrega no coração dos discípulos e na vida da Igreja nascente. Da aclamação messiânica ao entrar em Jerusalém ao seu processo condenatório Jesus vai-se recolhendo num silêncio que impressiona. Está ali totalmente presente mas a palavra fez-se totalmente carne, e tudo o que disse faz-se agora entrega. São Lucas, o evangelista da misericórdia, apresenta-nos as suas particularidades: Jesus pede ao Pai o perdão para os que lhe dão a morte, promete o reino ao ladrão que se compadece, entrega o espírito nas mãos do Pai.
A páscoa da nossa vida precisa desta ousadia: o perdão, dar a vida salvando, tudo entregar a Deus. Como seria o mundo se nós, cristãos, assumíssemos o perdão (das ofensas, das dívidas, das indiferenças, da não-aceitação, do passado) como verdadeira opção de vida? E se entendêssemos que ninguém pode entrar na casa do Pai sózinho? E se amássemos a pobreza para colocar tudo (tudo mesmo: bens, projectos, fama, sucesso, realização) no regaço do Pai? Entrar nestes dias de Páscoa vale a pena se aceitarmos morrer para ressuscitar. Se as celebrações não forem comprimidos analgésicos ou tranquilizantes, que alienam ou impedem a coragem de amar em verdade e servir melhor. A beleza da liturgia celebra a alegria da fé mas esta só é verdadeira se aumentar a bondade e a ternura!
Os pequenos gestos do Papa Francisco podem ser um belíssimo guia para libertarmos o Espírito Santo das prisões em que, tantas vezes, O colocamos. Não sentem como ele sopra pequenos e belos gestos de alegria e de graça que podemos fazer uns pelos outros? Pois é, se nos deixarmos guiar por Ele, talvez se abalem algumas seguranças (como devem andar “à nora” os guardas pontifícios, mas imaginam Jesus com segurança privada?) mas não iremos ganhar em vida verdadeira?      
 in Voz da Verdade 24.03.2013               

25 de março de 2013

Diário de uma virgem



Quinta-feira
Querido diário, hoje eu e meu namorado estávamos no parque.
Começamos a beijar e acariciar e, de repente, ele fez-me uma proposta indecente.
Então, saí correndo e percebi que minhas pernas são as minhas melhores amigas.
 
Sexta-feira
Querido diário, hoje eu e meu namorado estávamos no cinema.
Começamos a beijar e acariciar e, de repente, ele fez-me uma proposta indecente.
Então, saí correndo e percebi que minhas pernas são realmente as minhas melhores amigas.
 
Sábado
Querido diário, hoje eu e meu namorado estávamos no seu apartamento.
Ele colocou uma música romântica, bebemos vinho, dançamos e começamos a beijar e acariciar e, de repente, ele fez-me uma proposta indecente.
Então, percebi que ATÉ AS MELHORES AMIGAS UM DIA SE SEPARAM.
É a vida !!!

BOA SEMANA!!

A nova gastronomia



- Hoje fui a um restaurante gourmet!
- Ah sim e então?
- O meu almoço foi camarão envolvido em molho béchamel, com pequenos apontamentos de salsa frisada australiana
em cama de massa fina, banhada em pão ralado crocante e confitada em  óleo vegetal.
- O quê? Mas afinal que porra é que tu comeste, pá?
- Olha, comi um rissol...

Trabalho ou prazer?



O Presidente de certa empresa, casado há 25 anos, está com uma grande dúvida:

- fazer amor com a própria mulher, depois de tanto tempo de casamento, é trabalho ou prazer?

Na dúvida, ligou ao Director-Geral e perguntou. Por sua vez, o Director ligou ao Sub-Director e fez a mesma pergunta.O Sub-Director ligou ao Gerente e fez a mesma pergunta.

... E assim se seguiu a corrente de ligações até que a pergunta chegou ao Sector Jurídico e o Advogado perguntou, como é normal, ao Estagiário que estava todo atarefado a fazer mil coisas ao mesmo tempo:

- Rapaz, quando o Presidente da Empresa faz amor com a mulher dele é trabalho ou prazer?

- É prazer, Doutor! - Respondeu prontamente o estagiário.

- Como é que você pode responder a isso com tanta segurança e rapidez?

-... Se fosse trabalho, já me tinham mandado a mim!

22 de março de 2013

How would the World be like if we would all be Germans...










BOM FIM-DE-SEMANA!!!

A revendedora da Avon



A Revendedora Avon foi entregar seus produtos a uma cliente. No elevador,entre um andar e outro, sentiu uma necessidade horrível de soltar um PUM.
Como estava sozinha, soltou o danado:
- p f f f f f f f ... Que alívio!!!!

... Mal terminou, o elevador diminuiu a velocidade e parou num andar.
Rapidamente, ela pegou na bolsa o spray Avon "Aroma de PINHO" e borrifou todo o elevador. 
A porta se abriu e entrou um sujeito, que fez uma cara
feia e perguntou:
- Que diabo de cheiro é esse?
A mulher, com cara de inocência, disse:
- Não sei, senhor. Não sinto cheiro algum. Que cheiro o senhor está sentindo?
Ele:
- Não sei bem... É como se alguém tivesse cagado numa floresta...

Humor Político (Relvas, claro!)


Um segundo antes de...(últimas)




21 de março de 2013

O meu momento Janelle Monae


A foto documenta o momento em que a cantora rap Janelle Monae rasgou as calças, no rabo, durante o BET Rip the Runway, em 2010.
Não gosto de rap, nunca tinha ouvido falar na moça.
Descobria-a hoje quando procurava uma imagem para ilustrar o momento em que, ao sair do carro para vir trabalhar, ouvi um som estranho.
Parecia que algo se estava a rasgar.
Não, não podia ser, não podia ter rasgado as calças.
Podia, podia!
E, tal como Janelle Monae, bem em su sitio.
Ainda pensei seguir o exemplo Robbie Williams que, em 2011, em Cardiff, perante situação semelhante, pura e simplesmente tirou as calças e continuou a cantar.
Nem era preciso ir tão longe.
Bastava ficar com as calças rasgadas e o rabo arejado.
Não, o pudor não o permitiu.
Não sei o que fez Janelle Monae.
Eu, que não sou estrela rap,  fui mudar de calças.

Paquistão - Hoshyar Foundation


Num Mundo que ainda trata as mulheres como seres inferiores (regimes políticos e indivíduos)  faz bem à alma ver exemplos como este

Dança de rua em Moscovo


"Putting' on the Ritz"... in Moscow?!
What a crazy, delightful ever changing world! 
 Who could have thought that in 2012 young people in Moscow would put on a "flash mob" happening, dancing to an *83 year old* *American song* written by a Russian born American-Jew whose last name is the capital of Germany...

Vejam aqui

Um segundo antes de...(13)


20 de março de 2013

Blogue Olhar Direito


Outra vez por aqui
Desta vez para analisar o não do parlamento cipriota à proposta do Eurogrupo e a possível intervenção da Rússia no processo de resgate financeiro cipriota

Aumentos salariais do funcionalismo público em Macau


Os dirigentes de Macau, muito mais do que transparentes na  gestão da coisa pública, como tanto se apregoa, são previsíveis, muito previsíveis.
Como tal, não surpreendeu minimamente o anúncio formal de aumentos salariais para o funcionalismo público a partir de 1 de Maio.
E sem retroactivos.
Rigorosamente um ano depois do último aumento salarial, rigorosamente nas mesmas condições.
Apenas em diferente percentagem.
E, aí sim, confesso a minha perplexidade.
Em todo o mundo civilizado, os aumentos salarias têm por premissas fundamentais o crescimento económico e o valor da inflacção no ano anterior.
Em Macau, os números oficiais, sempre conservadores, apontam para valores na ordem dos 9.9% e 6.7%, respectivamente, no ano de 2012.
Assim sendo, e sublinho que se trata de números oficiais, como é que se chegou a um aumento salarial de 6.06% para 2013?
Para arredondar o índice multiplicador para 70?
Deve ter sido por isso.
Porque esta decisão, em boa verdade, não tem nada de científico.

A actual educação estraga as crianças - Eduardo Sá

E, já que estamos em maré de educação:


A actual educação estraga as crianças - Eduardo Sá

Foi assim que iniciou a sua palestra no Colégio de Nossa Senhora do Alto, em Faro, uma iniciativa promovida em colaboração por aquela instituição e pelo Centro de Formação Ria Formosa sobre o “Envolvimento Parental na Escola”.

Perante um auditório com cerca de 280 pessoas, o conferencista afirmou que “a estrutura tecnocrática, em que se transformou a educação, faz mal” e criticou o “furor da formação técnica e científica” que levou ao esquecimento de que “o melhor do mundo não é a escola mas as pessoas e, em particular, as relações familiares”. Lamentando a ausência de uma lei de bases para a família e para a criança, Eduardo Sá lembrou que “há aspetos muito mais importantes do que a escola na vida das crianças”, como a família. “Estamos a criar uma mole de licenciados e de mestres aos 23 anos que esperamos que sejam ídolos antes dos 30 e o fundamental não é isso”, lastimou, lembrando que “estamos a exigir aos nossos filhos que sejam iguais a nós: que ponham o trabalho à frente de tudo o resto”, esquecendo-nos de brincar com eles.

O conferencista considerou que “criámos uma ideia absurda de desenvolvimento” e lembrou que “a vida não acaba aos 17 anos com a entrada no ensino superior”. “Só os alunos que tiveram pelo menos uma negativa no seu percurso educativo é que deviam entrar no ensino superior porque estamos a criar uma geração de pessoas imunodeprimidas”, defendeu, sustentando que “errar é aprender”.

Eduardo Sá disse achar “uma estupidez” crermos que tecnocratas sejam “sempre mais inteligentes porque dominam a estatística”, “inacreditável” que “o mundo, hoje, privilegie o número à palavra” e um “escândalo” que, “nesta sociedade do conhecimento, não perguntemos até que ponto é que mais conhecimento representou mais humanidade”. “Este mundo está felizmente a morrer de morte natural. O futuro vão voltar a ser as pessoas”, congratulou-se, considerando a atual crise uma “oportunidade fantástica que temos a sorte de estar a viver”. “Esta crise representa o fim de um ciclo que aplaudo de pé. Este furor positivista está felizmente a morrer”, complementou, considerando que “o custo do positivismo foi a burocracia e a tecnocracia”.“Acho ótimo que possamos reabilitar algumas noções que parecem ferir os tecnocratas e que são preciosas para a natureza humana. Acho inacreditável que, depois do positivismo, a fé tenha passado de moda porque a fé é uma experiência de comunhão entre as pessoas”, acrescentou.

Eduardo Sá defendeu que as “educações tecnológicas” possam dar lugar à “educação para o amor” como “a questão mais importante das nossas vidas”. “Acho fundamental que tenhamos a coragem, a ousadia e a verticalidade de dizer que a maior parte das pessoas se sente mal-amada e acho fundamental explicar aos nossos filhos que é mentira que acertemos no amor à primeira e que é notável aquilo que se passa dentro do nosso coração”, afirmou.

Neste sentido afirmou que “devia ser proibido dizermos aos nossos filhos que se deve casar para sempre”. “Sempre que namoramos mais um bocadinho, casamo-nos mais um pouco e sempre que deixamos de namorar, divorciamo-nos em suaves prestações”, concretizou a provocação, considerando o casamento tão sagrado como frágil. “É uma experiência sagrada porque duas pessoas que decidem comungar-se é uma experiência tão preciosa que é sagrada, mas é frágil porque, às vezes, os pais estão tão preocupados com a educação dos filhos que se esquecem de namorar todos os dias”, lamentou, lembrando que “pais mal-amados tornam-se piores pais”. “É fundamental que a relação amorosa dos pais esteja em primeiro lugar, antes da relação dos pais com as crianças”, sustentou.

Eduardo Sá defendeu que “as crianças devem sair o mais tarde possível de casa” e jardins de infância “tendencialmente gratuitos para todos”. “Não se compreende como é que a educação infantil e o ensino obrigatório não são a mesma coisa”, criticou, lamentando que os governantes, “nomeadamente a propósito da crise da natalidade”, não perguntem: “quanto é que uma família da classe média (se é que isso ainda existe em Portugal) precisa de ganhar para ter dois ou três filhos num jardim de infância”.

O psicólogo defendeu ainda jardins de infância onde as crianças “brinquem e ouçam e contem histórias”, tenham educação física, educação musical e educação visual. “O ensino básico não é muito importante senão para que, para além de tudo isto, as crianças tenham português e matemática”, disse, considerando ser “mentira que as crianças não tenham competências para a aprendizagem da matemática”. “É ótimo brincar com a matemática mas a matemática sem o português torna-nos estúpidos. Não consigo entender que este país não acarinhe a língua materna”, criticou.

Eduardo Sá disse ainda não achar que “mais escola seja melhor escola”, criticando os blocos de aulas de 90 minutos porque aulas expositivas daquela duração são “amigas dos défices de atenção”. “Acho um escândalo que as crianças comecem a trabalhar às 8h, terminem às 20h e que tenham, entre blocos de 90 minutos, 10 minutos de intervalo. Quanto mais as crianças puderem brincar, mais sucesso escolar têm”, defendeu, acrescentando que “os pais estão autorizados a ser vaidosos com os filhos mas proibidos de querer a criar jovens tecnocratas de fraldas”. “Devia ser proibido que as crianças saíssem do jardim de infância a saber ler e escrever”, advertiu.

A terminar, defendeu ser possível “ter sucesso escolar” e “gostar da escola”. “Tenho esperança que um dia as crianças queiram fugir para a escola”, concluiu.


Visita Virtual à Universidade de Coimbra


Hoje, o convite é para efectuar uma visita virtual à Universidade de Coimbra
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Um segundo antes de...(12)


19 de março de 2013

O assalto cipriota e a UE como uma espécie de bombeiro pirómano


Os ministros da Economia e Finanças do Eurogrupo aprovaram na passada semana um pacote de ajuda à economia cipriota que poderá atingir os dez mil milhões de euros.
Uma União Europeia que não conseguiu prever, muito menos evitar, uma crise financeira sem paralelo no pós-guerra, aparece agora aos olhos do Mundo como uma espécie de bombeiro pirómano.
Um bombeiro que hipoteticamente combate os "incêndios" que deflagraram em vários países da zona euro (Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, Chipre) mas que, com as medidas que toma, em muitos casos os agrava.
Numa Europa carente de verdadeira liderança, a nível nacional e supranacional, cada vez mais a fazer passar a ideia de completo desvario, cada vez mais a fazer passar a ideia de uma máquina extremamente pesada, pejada de burocratas e tecnocratas, pagos a peso de ouro mas de duvidosa competência e total ausência de bom senso, o assalto cipriota acaba por não ser uma total surpresa.
A mesma União Europeia que critica repetidamente os países em dificuldades económicas, e os cidadãos desses países, pelos seus gastos excessivos (já todos percebemos que essa é só uma pequena parte do problema) apressa-se agora, no caso cipriota, a atacar o aforro.
Em que é que ficamos?
Não gastar, poupar, para ser assaltado nas suas poupanças pelo desvairado monstro europeu?
Cavaco Silva, em Roma, fez referência a uma medida perigosa e a ausência de bom senso.
O Presidente da República estaria a pensar não só nas poupanças dos cipriotas (depósitos até 100 000 euros serão taxados em 6,7%; acima desse valor em 9,9%) mas também no que representa este ataque a um dos maiores offshore europeus.
O dinheiro que se encontra nos bancos cipriotas, o dinheiro que está agora sob ataque cerrado da União Europeia, não é apenas resultante do aforro dos cipriotas.
Arriscaria afirmar que talvez seja menos aforro cipriota do que dinheiro que chega aos bancos cipriotas vindo de outras proveniências.
Dinheiro que, face a este ataque, vai evidentemente migrar para outras paragens.
Quando uma economia se encontra em dificuldades, com um grau de gravidade que obriga ao recurso a auxílio externo, uma medida destas só pode ser tomada por uma espécie de bombeiro pirómano.

«Como desejo uma Igreja pobre e para os pobres»: Papa revela detalhes do conclave e sublinha importância da Beleza


O papa explicitou este sábado que o seu nome é uma homenagem a S. Francisco de Assis (c. 1182-1226), que vendeu os bens aos pobres antes de fundar uma ordem que quis basear na pobreza.
«Como gostaria ter uma Igreja pobre e para os pobres», disse Francisco no Vaticano, durante um encontro com cerca de seis mil jornalistas acreditados na Santa Sé.
Em tom amável e descontraído, o papa relatou os momentos finais do conclave.
«Durante a minha eleição tinha junto a mim o arcebispo emérito de S. Paulo, o cardeal Claudio Hummes, grande amigo, que quando os acontecimentos começavam a ficar "perigosos", me confortava», explicou.
«Quando os votos chegaram aos dois terços e os cardeais aplaudiram, ele abraçou-me, beijou-me e disse-me: "Não te esqueças dos pobres"», acrescentou.
O papa argentino, o primeiro da América, explicou que fixou a palavra "pobres" e logo pensou em Francisco de Assis, santo da pobreza, da paz e da defesa de tudo o que é criado por Deus.
Francisco causou o riso dos jornalistas ao contar que alguns cardeais lhe sugeriram que se chamasse Adriano, em honra de Adriano VI, conhecido como o reformador, ou Clemente XV, para se «vingar» de Clemente XIV, que suprimiu os Jesuítas, ordem a que o novo papa pertence.
Para o novo papa Cristo é «a referência fundamental» de uma Igreja que «não tem natureza política mas essencialmente espiritual»: «Sem ele, Pedro e a Igreja não existiriam nem teriam razão de ser».
É importante, caros amigos, ter em devida conta este horizonte interpretativo, esta hermenêutica, para ressaltar o coração dos acontecimentos destes dias», sublinhou.
A Igreja, prosseguiu, «existe para comunicar a Verdade, a Bondade e a Beleza "em pessoa". Deve manifestar-se claramente que somos todos chamados não a comunicar nós mesmos mas este tríade existencial».
«Muitos de vós não pertencem à Igreja Católica e outros não são crentes; mas respeitando a consciência de cada de cada um dou-vos a minha bênção, sabendo que cada um de vós é filho de Deus», disse ao terminar o encontro.


UM NOVO PAPA (Frei Bento Domingues, O.P.)


1. Desde o passado dia 13, o Vaticano tem novo inquilino. Surgiu à janela o primeiro Papa jesuíta, vestido de dominicano, com nome franciscano, muito bem-disposto, feliz pelo ministério que lhe foi confiado, sem a estola do poder e, antes de distribuir bênçãos, pediu para ser abençoado.
Na Companhia de Jesus, aliás, como nas outras ordens religiosas, apesar do que se diz, os seus membros não são todos clonados. Conhecer um, não é conhecer todos. Como dizia um jesuíta brasileiro meu amigo, eu trabalho com os pobres contra a opressão de que são vítimas. Outros ensinam nos colégios e nas universidades donde não sairão necessariamente os defensores dos excluídos.
Mário Jorge Bergoglio nasceu em 1936. Prestou relevantes serviços à Companhia de Jesus, na Argentina, foi Provincial num tempo terrível de ditaduras militares e da louca história dos desaparecidos e despejados de helicóptero, no alto mar. Essa história envolveu muitas figuras da Igreja, embora ainda esteja escrita debaixo das emoções de terríveis memórias. Não é de admirar que o comportamento de Bergoglio possa, agora, voltar a ser evocado, por motivos evidentes, sem a devida distância, para uma apreciação isenta.
2. O novo Papa conhece bem não só a Argentina, mas toda a América Latina e os seus problemas sociais, económicos, políticos e religiosos. Não é, porém, uma pessoa que vem do fim do mundo e se encontra, de repente, no Vaticano.
Como cardeal fez parte da Comissão para a América Latina, da Congregação para o Clero, do Pontifício Conselho para a Família, da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, do Conselho Ordinário da Secretaria-Geral para o Sínodo dos Bispos, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.
O Papa Francisco está, por isso, em condições excelentes para conhecer os métodos usados no Vaticano para conhecer o mundo e governar a Igreja, mas também sabe de que se queixam os que, noutros Continentes, a começar pela América Latina, não se sentem representados pela engrenagem da Cúria. Não pode fingir que ignorava a complexidade da problemática que o espera e as limpezas que tem de fazer no Vaticano, para que este não continue a escandalizar o mundo.
3. O despojamento com que se apresentou e o nome que escolheu podem sugerir que não vai entrar no jogo do culto da personalidade, nem vai ceder à “papolatria”, nem a designações que o afastem da figura de “servo dos servos de Deus”. A Igreja não é dele, nem ele é a Igreja. Tem, com os outros bispos do mundo inteiro e os seus padres, de servir um povo sacerdotal, profético, livre, composto de mulheres e homens, chamados todos à transformação da vida e à transfiguração da Terra.
Tem muito que fazer, pode contar com o Espírito Santo e com a oração da Igreja inteira. A oração não é para convencer o Espírito Santo, nem para O responsabilizar por tudo o que acontece na condução da Igreja. Os Papas também se confessam. Essa beatice seria, aliás, um mau serviço a Deus e ao Papa. A oração é para nos abrir ao desígnio libertador de Deus e escutar o rumor do mundo.
4. Há, de certeza, muita gente que está de acordo, outra em desacordo e, outra ainda, de acordo numas coisas e noutras não, acerca de tudo o que consta sobre as posições teológicas, éticas e pastorais do novo Papa. Não sei como poderia ser de outra maneira. Será importante que não use o seu ministério para levar avante as suas convicções pessoais e o que julga que é a sã doutrina. Seria terrível que não tivesse convicções profundas e bem alicerçadas, para não andar ao sabor da moda.
Todos os cristãos recebem, no baptismo, uma unção nos ouvidos e na boca. Há mais ouvidos do que boca. Este Papa será fiel ao Vaticano II se adoptar o método de João XXIII. Não é para repetir o que aconteceu há cinquenta anos. É para algo que um célebre Cardeal jesuíta, Carlo Maria Martini, Arcebispo de Milão, desejava que o próprio Bento XVI tivesse realizado: um novo Concílio. É preciso colocar a Igreja inteira, em todos os continentes, países, dioceses, paróquias e movimentos a escutarem a voz de Deus nos sinais dos tempos e na voz de todos os seres humanos, nas suas alegrias, nas suas tristezas, nas suas esperanças e nos seus desesperos. Não importa se um processo destes vai levar muito ou pouco tempo, pois o próprio processo é um caminho de fé e de nova evangelização. O Papa ao visitar os países, as dioceses, as paróquias, deve dispensar os gastos e o espavento das habituais viagens de um chefe de estado.
Se são visitas pastorais, siga o estilo sugerido pela metáfora do Bom Pastor.

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público